A Corrida do Ouro

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A euforia na produção de séries de TV nos EUA hoje em dia é onipresente e contagiante.  Personagens complexos, sutis e de moralidade dúbia em enredos brilhantes proporcionam, para taxonomia da imprensa americana, uma “Era de Ouro”. Enquanto isso no Brasil e em tosca comparação, vivemos ainda -e apenas- uma “Corrida do Ouro”, graças ao novo mercado fomentado por leis e programas de incentivo à produção. Há igual euforia, mas causada mais pelos novos modelos de negócios do que por grandes idéias ou roteiros geniais. Também é um mercado em ebulição, mas que urge amadurecer criativa e financeiramente.
Nunca se discutiu tanto o processo criativo, nunca se trouxe tantos americanos para ministrar palestras e nunca se quis tanto melhorar a qualidade do que se produz. Os artigos de lei e linhas de financiamento foram cruciais para o cenário de televisão por assinatura começar a mudar, mas a eficácia industrial como a americana só vai acontecer quando canais e criadores tiverem o mesmo comprometimento criativo que faz o mercado sustentável, isto é, audiência, produtos que gerem negócios e formatos que virem franquias. Até agora produziu-se barato para cumprir quotas e caro porque se podia. Isso não sustenta o mercado.
Motivada por minha experiência de executiva de canais, encontrei em uma produtora, Panorâmica, e na Globosat, maior programadora brasileira, parceiros ideais para o que consideramos seria um passo definitivo para o amadurecimento do mercado de ficção e em 2013 lançamos um evento anual exclusivamente para roteiristas de TV, o Programa Globosat de Roteiristas. Trouxemos ao Brasil criadores de séries de sucesso para compartilharem suas experiências consagradas e deixarem um pouco de seu legado. A primeira edição do evento resultou  em 12 projetos escolhidos a dedo para serem trabalhados em aulas com mentores americanos. 4 foram escolhidos pela Globosat para entrarem em desenvolvimento e dois deles, usando o processo de criação americano, o writer’s room (sala de roteiristas), uma aplicação pragmática de tudo que estávamos promovendo. Tive a oportunidade de supervisionar estas duas salas: uma comédia para o canal Viva e um drama para o GNT. Foi a primeira vez que os dois canais investiram em desenvolvimento usando este processo e sem o compromisso com estréia. Mesmo que os resultados de produção e audiência ainda estejam por vir, a experiência foi transformadora.
O erro mais comum no Brasil até então era esperar que no primeiro dia de trabalho, roteiristas começassem a escrever o primeiro episódio de uma série. Um convite ao fracasso: sem parâmetro de onde vai a história ou do que é bom, o roteirista estava sozinho, paralisado. Só depois de enviar seu roteiro para o produtor ou ao canal, é que recebia algum comentário (muitas vezes críptico, como “não era bem isso”). Com a urgência de entrega e financiamento garantido, a qualidade da história geralmente ficava em segundo plano.

Criar um roteiro não é um processo linear e no writer’s room não se escreve, mas o retorno é instantâneo. Há um olhar crítico coletivo, não há distração externa alguma, e as ideias que não servem ao grupo,  comprometido única e exclusivamente com a história, rapidamente dão espaço para outras com mais força e substância. Não é uma rinha de galos, porque o ego fica do lado de fora e trabalha-se em cima de conceitos técnicos. A prioridade é a série, o autor são vários autores. O contraste de evolução para o processo individual é enorme. E é a melhor forma de criar na TV, um meio onde a colaboração é imperativa.

O passo seguinte será o de cultivar a figura do showrunner, que é o gestor artístico dos roteiristas da sala e quem dá unidade à série, administrando-a do roteiro à produção. Por enquanto, a figura central ainda está no diretor, que por tradição, sente-se obrigado a dar sua “marca” autoral, às vezes até em detrimento à história.  Talvez a mudança deste processo no Brasil ocorra quando diretores começarem a contar suas próprias histórias ou roteiristas administrarem suas criações como histórias de 100 horas onde controlam a produção.  Mas para chegar lá ainda precisam enriquecer colossalmente suas personagens e aperfeiçoar tremendamente o que escrevem .
Se no writer’s room de Breaking Bad, as 14 pessoas na sala levavam até duas semanas discutindo os dilemas  morais que passavam pela cabeça do multidimensional Walter White de um único episódio, como um roteirista brasileiro que não conhece Aristóteles ou Heidegger, pode contar uma história sobre redenção? House, o médico não convencional e misógino, notoriamente inspirado em Sherlock Holmes, do (também médico) Conan Doyle, levou até quase um ano para ser desenvolvido. E Tony Soprano, a pedra fundamental da nova produção de séries de TV, é uma personagem igualmente multifacetada (16 dimensões) gerada por um autor obcecado por Fellini, que cita Tennessee Williams e Arthur Miller.  The Wire, The Shield, Mad Men, Dexter — todas estas séries tem personagens centrais que representam a necessidade do americano entender sua posição no mundo hoje.Ainda temos um longo caminho a percorrer, seja entre canais, produtores ou roteiristas. Os termos americanos que começam a pipocar no Brasil (como writer’s room e showrunning) identificam ferramentas fundamentais do processo de criação americano, mas não significam nada aqui por enquanto. Nosso mercado precisa realmente amadurecer. Vamos chegar lá, sim, mas quando a “Corrida do Ouro” acabar e a prioridade for a qualidade das histórias na tela.