Best in Show 2017

Se alguém tivesse passado o ano em coma e acordado só agora com vontade de ver TV, a primeira série que eu recomendaria binge watch seria a excelente The Handmaid’s Tale (Hulu), seguida de Big Little Lies (HBO). As duas são adaptadas de livros de autoras de bestsellers, cada uma em seu tempo, e que hoje vivem um pequeno renascimento. Na TV, Big Little Lies, é um alívio de se ver: gente bem vestida, trilha ótima, locações incríveis. This Is Us, em sua segunda temporada ficou mais escura mas não menos bem escrita.  Game of Thrones ficou mais grandiosa, sem ligar a mínima para roteiro mas cada vez mais veículo de cultura pop. Depois viriam as comédias inglesas e inteligentes, como a genial Catastrophe, na terceira temporada, e Fleabag, que foi lançada no ano passado, mas qualquer um deveria ver de novo. Gostei muito de Mindhunter (Netflix) e de Manhunt (Discovery), The Americans (AMC) sempre foi boa, a israelense Fauda foi uma ótima surpresa. Mas quanto à qualidade do roteiro, da história, da consistência de personagem, tema e tudo mais: Better Call Saul (AMC) continua imbatível, sendo que um episódio em particular nesta temporada, Chicanery, chegou a ser shakespeariano!

 

rare comedy gem

It’s called Baroness Von Sketch Show, it airs on IFC, it came from Canada, and it’s very funny. Created, written and produced by four women that are also the stars, this is a rapid- fire sketch show about women and their issues. Sometimes subtle, always smart, and often hilarious, subjects go from everyday social situations to workplace and everything that makes us cringe. In one of their sketches, “Run the World”, a global revolution has left women in charge. When we see the all-female World Summit of 2050, what usually takes days is wrapped up in less than an hour. “Conflict? Any war?” “No, we just talk it out these days.”

Writer’s Rooms Brasileiros

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Os canais Viva e GNT investiram pela primeira vez em desenvolvimento de séries sem compromisso de exibição usando o método americano, o writer’s room (sala de roteiristas). O erro mais comum no Brasil até então era esperar que no primeiro dia de trabalho roteiristas comecem a escrever o roteiro do primeiro episódio de uma série. Ou seja, um convite ao fracasso: o roteirista não tem parametro de onde vai a serie, do que é bom, do que é engraçado ou do que emociona. Só depois que manda seu roteiro para um diretor, produtor, ou um canal, é que recebe os comentários.

Criar um roteiro, uma história, não é um processo linear e no writer’s room, o retorno é instantâneo. O método é coletivo, há uma disciplina que garante qualidade. juntamos roteiristas de diferentes estilos e experiências e nos reunimos diariamente para criar, analisar, criticar, testar, ler e reescrever. Só assim, podemos ver a construção de algo muito mais sólido, profundo e cheio de camadas. Foram dois grupos bem distintos para duas séries distintas para dois canais diferentes. Sucesso.

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Now Genre

A riqueza de talento que encontrei no Primeiro Programa de Roteiristas da Globosat e o comprometimento da empresa em amadurecer o mercado de produção de ficção foram minha maior motivação para trabalhar no desenvolvimento da comédia “Meu Amigo Encosto” para o Viva e a série dramática “O que Dizem Seus Olhos” para o GNT. Moro fora do Brasil há 17 anos e a pedido da Globosat, desde Julho estou conduzindo dois writer’s rooms em São Paulo, desenvolvendo as duas primeiras séries que saíram de nosso Primeiro Programa de Roteiristas.
O trabalho em writer’s rooms (em tradução literal: Sala de Roteiristas) é decisivo no sucesso de uma série de ficção. É onde um grupo de diferentes estilos, gostos e experiências se reune para pensar exclusivamente em personagens e enredos. Sob comando de um show-runner, que dá unidade e consistência à série, a colaboração, a crítica e o aperfeiçoamento é constante. É na sala que temos uma mini amostra da audiência. É de lá que sai um sucesso.
Começamos da mesma maneira nas duas Salas: estudando referencias, assisistindo centenas de séries diariamente, analisando scripts e jogando idéias na roda. Depois vieram personagens, backstories, plots e um “estacionamento” de idéias. Muito se pensou, escreveu e se jogou fora. Só em “Meu Amigo Encosto” começamos do zero umas três vezes. Escrever, como diz McKee, é reescrever.
Com um grupo muito experiente e outro nem tanto, o maior desafio que encontrei foi fazer que os rotieristas entendessem que precisam escrever “de dentro para fora”, ou seja, vestir a pele da personagem e deixa-la falar por si própria. Personagem vem antes de enredo. Conceitualmente parece fácil. Não é.
E assim passamos os últimos 5 meses. Lapidamos personagens e aperfeiçoamos enredos, rimos, brigamos, nos criticamos e nos aplaudimos… Sempre com o mesmo objetivo: ter uma série genial. Todos na sala sabem como pensam, falam, vivem e comem nossas personagens. Já podemos tratar todos — Corina, Guilherme, Thais, Ari, Evandro, Ivan, Janjão, Rosi, Yolanda, Clint, Neiva — pelo primeiro nome. O resultado é maravilhoso.

Uma indústria de entretenimento

Esta semana participei do Forum Brasil de Televisão  (surpreendentemente) pela primeira vez. Trabalhando há muitos anos fora do Brasil, no ano passado, muito movida pelas mudanças no mercado, voltei a trabalhar com os brasileiros e criei em parceria com a Panoramica e Globosat, um evento sensacional dedicado a capacitar roteiristas (continuo querendo chamar o evento de Rio Script ao invés de Programa Globosat  de Desenvolvimento de Roteiristas, totally brandless).
imagesO Brasil vive um momento muito especial. Tanto as leis de incentivo quanto a lei do cabo oferecem a oportunidade de realmente se criar um mercado competitivo, uma indústria audiovisual. Um indústria
com gente qualificada em funções específicas (roteiristas, show-runners, development execs, producers), além de uma programação original mais competitiva, temporadas de pitches,  pilotos e quem sabe um dia até agentes.
Falta muito até chegarmos a uma indústria de entretenimento como o americano (afinal é o segundo maior produto de exportação da maior economia do mundo) mas o que se começou há mais ou menos um ano, aqueceu o mercado de tal forma que é natural dar o próximo passo rumo ao amadurecimento. E em 5 a 10 anos, ter programas no mundo inteiro. Quem sabe o próximo Homeland não vai ter vindo do Brasil?
Com a implementenção da lei, seja por razões culturais, prazo ou mesmo know-how, as produtoras independentes não estavam preparadas para suprir a demanda, nem os canais estavam preparados estrategicamente para produção original.  O que eu vejo, olhando de fora, é que se produziu barato para cumprir cotas e se produziu caro porque podiam.  Só que esta dinâmica não sustenta um Mercado de TV, que agora é multi-plataforma. E vai contra o propósito dessas leis, que existem para fomentar a indústria (e um dia deixarem de existir). Não são bolsa-família, certo?
O Brasil tem gente talentosa, mas produtores e canais não estão falando a mesma língua, a mão esquerda e a mão direita não estão se falando…ainda. Ouve-se  mais o mantra “precisa-se de roteiristas”, do que “recebi roteiros ótimos”.  Claro que há roteiristas,  muitos. Mas eles precisam ser capacitados e melhorar MUITO seus scripts. É preciso investir em development/desenvolvimento de histórias que caibam dentro de posicionamento distintos de canais e que sejam trabalhadas até ficarem excelentes para entrarem em produção. Só depois irem ao ar. Também não temos tradição de produzir séries de ficção,  não temos a figura do show-runner e na minha opinião cultiva-se o mito do diretor como autor.  Eu brinco dizendo que todo mundo que fazer “meulonga”. Na televisão isso não acontece, na  ficção de TV, o roteirista é que rei.
Nos Estados Unidos, estamos vivendo a Era de Ouro da TV,  com as melhores histórias sendo contadas no cabo…. Os grandes roteiristas estão migrando para a TV porque lá podem contar histórias de 100 horas. E este mercado continua em evolução, com Netflix, You Tube e Amazon. O consumidor vai atrás de uma boa história, não importa the means of distributions.
Mashá luz no fim do túnel. Pelo menosposso falar da experiência com Globosat. Depois do nosso Programa de Desenvolvimento para os roteiristas, vejo o comprometimento deles em realmente tornar o mercado mais maduro a médio/longo prazo. Os 12 projetos finalistas deram a Globosat um pequeno acervo de conteúdo. De lá, 2 projetos já começaram a ser desenvolvidos, um terceiro também terá um piloto.  E vamos começar a treinar show-runners, que é quem vai dar unidade à série, sem perder a visão do lado business.  Guardadas as proporções é assim que funciona nos EUA. Eles estão fazendo tudo certo para amadurecer o mercado.